quem espera, em cascais.
Iam duas mãos (dadas) a passear pela rua.
Traziam os corpos de rojo, como corrente eléctrica.
Os rostos, inexpressivos, eram quase estáticos no movimento, mas as pálpebras caíam e voltavam a abrir, mecanicamente. Os corpos eram iguais, pelas ruas. Um escuro, outro mais claro. Os dedos pareciam vincar a pele, numa espécie de fusão, ou de perda de identidade, não sei. O passo ia lento, mole, arrastado...e ao mesmo tempo certo, sincronizado.
Pararam na estação.
As mãos continuaram dadas, e continuavam a ser só mãos, mas desta vez sobre a pedra do banco cinzento.
Continuou o silêncio.
Continuaram a cair sobre si mesmos, as mãos que passeavam na rua, mais as pálpebras e a rotina que se manifestava no vácuo. Duas pessoas que não libertavam calor, só electricidade, "de estufa".
Chegou o comboio.
Chegaram as pessoas.
Chegou um olhar que quebrou a corrente. As mãos largaram-se, por instantes, e do vazio ouviram-se os olhos, as mãos, o corpo e a boca a gritar ao mesmo tempo: "Vai-te foder!".
the end.



