Tuesday, August 19, 2008

quem espera, em cascais.

Iam duas mãos (dadas) a passear pela rua.
Traziam os corpos de rojo, como corrente eléctrica.
Os rostos, inexpressivos, eram quase estáticos no movimento, mas as pálpebras caíam e voltavam a abrir, mecanicamente. Os corpos eram iguais, pelas ruas. Um escuro, outro mais claro. Os dedos pareciam vincar a pele, numa espécie de fusão, ou de perda de identidade, não sei. O passo ia lento, mole, arrastado...e ao mesmo tempo certo, sincronizado.
Pararam na estação.
As mãos continuaram dadas, e continuavam a ser só mãos, mas desta vez sobre a pedra do banco cinzento.
Continuou o silêncio.
Continuaram a cair sobre si mesmos, as mãos que passeavam na rua, mais as pálpebras e a rotina que se manifestava no vácuo. Duas pessoas que não libertavam calor, só electricidade, "de estufa".
Chegou o comboio.
Chegaram as pessoas.
Chegou um olhar que quebrou a corrente. As mãos largaram-se, por instantes, e do vazio ouviram-se os olhos, as mãos, o corpo e a boca a gritar ao mesmo tempo: "Vai-te foder!".

the end.

Sunday, August 3, 2008

Fazia-se sentir um eco estranho.
Copos que se partiam sem fazer barulho, pessoas que se moviam sem dizer nada, e nas paredes, um vazio esquisito que lhes pintava a cor, que surgia em cada momento das pequenas trocas, na vida, em de-redor.
Na rua um abraço, algumas conversas mais de dentro, outras mais para fora. Um amigo que já não via há muito, outros que vieram de longe, novos. Na rua um beijo, e outro, e mais um porque se dão dois na despedida. Na rua, um sorriso e uma gargalhada surgida de um instante verdadeiro. Um parapeito de vivências. Na rua a vontade e alguma preguiça de ir embora. Na rua uma rotina, um fim e um começo.
Na rua. Um livro. Abro-o para lhe sentir o gosto, em cada página, quando me debruço sobre ele, chegada depois a casa. Em cada letra um dislimite de equações, direcções e enquadramentos, como se em todos os poros coubessem mundos e em cada um se dilatassem todos os outros, ao mesmo tempo. Porque a literatura se dispersa em nós e nos transforma. Porque, como me disseram, escrever “prescreve” os males, os anseios, as frustrações e até a alegria de momentos.
Porque, por vezes, pequenos momentos, algumas horas, alguns minutos, valem-se por dias inteiros, bastam para engrandecer dias e mantê-los vivos. Mas outras vezes, não. Porque um dia são 24 horas, e o tempo é uma vida inteira.
Porque se sou a maior constante, que me baste, que não me baste...mas que me baste.
Porque (um) a palavra, que não diz nada (ou não é nada), as vezes tem de ser tudo.
Mesmo com revolta.
Mesmo contragosto, porque há "gostar".
Portanto, vou para baixo e vou bastar-me, na rua e em casa e em qualquer outro lugar.
Há que tentar.
E conseguir, eventualmente.

Friday, July 18, 2008

. . .Tempo para me distrair com o tempo!


“Some of us think holding on makes us strong; but sometimes it is letting go”.
Herman Hesse

Sunday, June 15, 2008

Me and James Love...

Noitadas!...tremidas.
Café, Date Rape e Cancro [grandes mixes]
Time for nothing else.

Friday, June 13, 2008



Paragrafos, caidos ao chão.

O avesso.

Ser pessoa e ser não-pessoa.

Estar vivo.

Respirar fundo e mergulhar.


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"Ser-se simplesmente louco, ser-se simplesmente irreal dentro da própria realidade."

Thursday, June 12, 2008

Há dias em que acordo e o mundo inteiro é um tinteiro, uma paleta de mil e uma cores sobre as quais debruçar pontos de fuga e acção, rabiscos dos devaneios, achados, de norte a sul da biologia humana. Dias de momentos a caminho de momentos a todo o instante, como se em cada segundo coubesse uma fotografia da vida ou um bloco de notas para os placares da memória. Dias de suspiros de vento no rosto e cabelo nos lábios, de olhos postos nos percursos, multiplicados em cada passo, como diagonais do que poderíamos ser, se quiséssemos.
Sim, há dias assim.
Dias com eco dos sorrisos e até das lágrimas, dias de malas ás costas e projectos no peito, dias de vontades do fundo, de saudades do mundo. Dias de busca! Quero sentir que toco, quando toco, que vejo quando olho. Não busco espelhos nem retórica e nem sequer os prefácios, quero mesmo a literatura do bolso e das viagens de comboio. Quero o por e o nascer do sol. Quero o dia…quero a noite! Quero verdade em cada acto, quero vontade. Quero diálogos de improviso e o teatro de rua. Quero concertos de emoção em cantos sozinhos, quero-os a dois, quero-os em grupo. (sim, também quero estar comigo mesma e sentir que, por isso mesmo, nunca estarei sozinha). Quero vivências que se bastam a elas mesmas, quero silêncios que falam e olhares que não escondem. Quero o abraço e não quero (mais) limites. Quero bater com o pé e dizer que não. Quero saltar e saber que sim. Quero luz…e a transparência!
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Estou cansada do monólogo. Cansada, da antecipação!
Sim, estou com(tudo) cansada…
e quero dias assim!

Sunday, May 18, 2008

É o que se prende debaixo do pontiagudo das palavras, do descrédito, do desapego. Na ponta da língua há sempre um dicionário sem sinónimos na gramática do outro. Cada pequeno vocábulo é um mundo pela sua conjugação, seu timming e pela discrepância entre o ser e o estar, entre os ditos e os não-ditos, entre o começo e o fim. As vezes são milímetros, outras vezes são percursos demasiado longos que separam uma coisa da outra e cada um de cada qual. Somos diferentes. Somo iguais. Mas somos todos, de alguma maneira.
E se há ficheiros partilhados no corpo, que não se trocam só com o corpo, nem só com a mente, ou com qualquer outro instrumento (pálpavel) de medida, da labilidade dos processos sobra também uma objectividade incontornável.
Por conseguinte, neste enlace, do s-ou-s, agora, já não há que retirar outra coisa senão “uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma” conforme escreveu Irene como forro de uma capa de livro qualquer. Também os nomes não importam, nem as palavras que são só palavras, nem as verdades que são só meias, ou as mentiras que não magoam.
Há um extremo em cada ponto de viragem e um posterior meio-termo que não é termo de coisa alguma. Reticências encavalitam-se, umas em cima das outras, umas, perdidas nas outras, roubadas nas outras, vazias nas outras. Porque nestes instantes, tropeça um arrastão de imagens que levam a segurança e o arrebatamento, a tranquilidade e o conforto e que, no limite, nos levam também a nós.
O tempo escorre e no entretanto, de cada tanto, tudo é tão leve e tão solto, como as curiosidades presas ao chão e os isqueiros que se trocam, levianamente, em conversas de café.

De momento estou off. Volto quando houverem estribeiras.