Tuesday, August 21, 2007

peguei na vontade de ir e fechei os olhos. não havia nada que se pudesse dizer antes de fechar a porta, nem nada a fazer depois de ter ido embora. não havia olhares para trás, não havia espaço para virar a cabeça e arrepender-me depois. todos os caminhos me apontavam a porta de saída indicada no mapa lábil do engenho humano, do parapeito para o anseio que somos, de vez em quando. levantei-me em jeito de troça, para depois escutar o grito que se soltou e me beliscou as palmas da mão, dizendo “Vamos agora”. não, não sobrou tempo para dizer que sim ou que não, talvez mais tarde, não. não houve tempo para um até logo, nem sequer um adeus - não houve tempo para viver antes de viver. quase nao sobrou tempo para voltar antes de ir. não sobrou lugar, restou apenas o preludio das memorias de amanhã, que percorreriamos em passo largo. no entanto, nenhum momento se fez de memórias. não. afinal, não havia espaço para mais conversas, para recordar. nem sequer havia força. havia somente uma perna a puxar a outra e o amolecido ritmo dormente dos pés cansados de estar à espera. o peso do tempo ressacou do tempo, esticou a corda e seguiu viagem, no vento, em direcção ao ponto de fuga.

Agora que já fui tanto, falta-me a vontade de ir de novo. fui.

20-julho

Friday, August 17, 2007

A sudoeste de casa...


Os dias a sul começaram ensolarados e agitados, com música, cheios de tudo e nada, cheios de vontade, de força e de cansaço. Os dias a su(doeste) começavam…mas nunca chegavam a acabar. De algum modo, a alvorada era todo o dia e, todo o dia, era toda a noite…
Por isso mesmo, corremos praias, escalamos o que não conhecíamos – o que nos desafiava – tomamos banhos de água fria e pó, furamos pneus, dormimos debaixo do sol, mas também da chuva, cantamos para ficar sem voz e gritou-se já sem a ter – sussurrámos para ser entendidos, agitámos os braços e as pernas no ar, fizemos looping e fomos “dragon ball”.
Os dias passaram, correram – as vezes, outras, prenderam-se na lentidão dos passos, arrítmicos para com o fluxo sonoro que rebentava dos palcos em auge. Sopraram-se para dentro as vibrações da música, do espaço, do ambiente e sobretudo, daqueles com que os partilhei e vivi. A multidão soube encher os lugares em cada instante, na praia, nos concertos, nos trampolins, para apanhar o autocarro, no parque, para tomar banho e até para lavar a loiça ou os dentes [ou a loiça e os dentes ao mesmo tempo], mas enquanto a delonga se fez convosco...a espera não se fez e o drama e a tragédia, converteu-se em comédia para mais tarde contar.
Portanto, enquanto a noite se ensopava de estrelas por cima dos ramos secos dos pinheiros – e das nossas cabeças – houve tempo para ter valido a pena, para os arrepios de frio e até os de emoção, para matar saudades, para gerar saudades, para a excitação da música e comoção ao vivo, para ganhar certezas, para perdê-las, para reformular, para construir, para viver uma experiência nova e aprender com isso.
A sudoeste, esteve-se bem e foi bom a vossa presença, sentir-me bem nela. Obrigada pelos momentos, pela deteorização do medo – o meu – que foi mas não veio, e claro, pelos pormenores, todos.


Canção Simples
Tiago Bettencourt


Há qualquer coisa de leve na tua mão
Há qualquer coisa que aquece o coração
Há qualquer coisa quente quando estás
Há qualquer coisa que prende e nos desfaz

Fazes muito mais que o sol
Fazes muito mais que o sol

A forma dos teus braços sobre os meus
O tempo dos meus olhos sobre os teus
Desço nos teus ombros para provar
Tudo o que pediste para levar

Fazes muito mais que o sol
Fazes muito mais que o sol
Fazes muito mais que o sol
Fazes muito mais…

Tens os raios fortes a queimar,
Todo o gelo frio que construí.
Entras no meu sangue devagar,
E eu a transbordar dentro de ti.
Tens os raios brancos como um rio
Sou quem sai do escuro para te ver
Tens os raios puros no luar
Sou quem grita fundo para te ter

Fazes muito mais que o sol
Fazes muito mais que o sol
Fazes muito mais que o sol
Fazes muito mais…

Quero ver as cores que tu vês
Para saber a dança que tu és
Quero ser do vulto que te faz
Quero ser do espaço onde estás
Deixa ser tão leve a tua mão
Para ser tão simples a canção
Deixa ser das flores o respirar
Para ser mais fácil de te encontrar

Fazes muito mais que o sol
Fazes muito mais que o sol
Fazes muito mais que o sol
Fazes muito mais…

Vem pular o medo vem
Saber se há depois
E sentir que somos dois
Mas que juntos somos mais.

Quero ser razão para ser maior
Quero te oferecer o meu melhor
Quero ser razão para seres maior
Quero te oferecer o meu melhor
Fazes muito mais que o sol
Fazes muito mais que o sol
Fazes muito mais que o sol


Uma das boas descobertas... de ouvir e partilhar.

Wednesday, August 1, 2007

Barcelona




Barcelona passou num ápice de encontros, descobertas, momentos e maturação interior, procura interior, invenções, sonhos e projectos, pelas ruas, nas explanadas e nos jardins, cá fora.
Fomos 4, fomos 10, fomos todos os números no meio e fomos sozinhas também, fomos multiplicidade (d)e cultura, fomos inúmeras línguas, fomos ... e regressamos!..Ficando um pouco por cada lugar, solto, para sempre.


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Houve espaço de tanto, para tanto...
...houve monumentos e arquitectura para nos levar ainda mais longe que o longitude limita.
...houve portas para nos abrir mil e um mundos diferentes, para o fantástico, para o “sem fim”.
...houve mercado de fruta a perder de vista, cerejas do tamanho de orelhas, da cor de bocas rosadas, com sabor de fim de tarde no parque Guell.
... houve passeios pelo bairro gótico, noites em praças de música, em praças de conversa, em praças de experiências compartidas.
... houve gargalhadas – ai houveram tantas gargalhadas ... Cumplicidades.
... houve tempo para contratempos, que mesmo do avesso, foram incríveis e conduziram a tão grandes bens vindos de pequenos males.
... houve tempo para, quem sabe, fazer Amigos, houve tempo para partilhar.
... houve tempo para nós, enfim, houve tempo para ser inesquecível, para não caber em palavras!

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E na última noite, houve também tempo para escrever, um momento, que talvez por ser último e trazer tantas saudades, mesmo em presença, foi muito forte.


“Barcelona no aconchego da música caboverdiana, que se toca na muralha da Carrer D´en Sol, debaixo da chuva de pétalas que caem da copula das arvores que nos cobrem, no verde e no cinzento do chão, que as guitarras amolecem.
Sublime!
Respira-se a emoção que explode no molhado dos olhos – expressividade do olhar – e na voz do caboverdiano, o preto que conduz a voz do branco, esta noite, aqui no beco em tons de sépia.
No fim da viagem, talvez em inicio de um grande encontro... A vida vive-se aqui, com esta brisa, com este cheiro e sobretudo, no embalo confortável que vem de dentro e que já só sabe tão bem.”
Joana, 27/07

Dia 20 fui para cima. Agora, dia 1, vou para baixo... porque o inesquecível não tem de ter limites, nem os momentos, nem as pessoas de quem gostamos, nem a diferença pela qual passeamos...nem nós.

Wednesday, July 18, 2007

"We´ll aim for the stars"

Indo.
Tempo de ir. Faço as malas de tudo que não couber por dentro e vou, fui embora.
Limpo as ultimas poeiras de preocupação, sacudo os espaços fechados, apertados e nesses instantes em que fecho o zip da mala e calço os sapatos mais confortáveis, solta-se também o pó da emoção, que não me tira o ar, de ansiedade, que não me imobiliza, liberdade que me abre o caminho, que o atravessa e que, portanto, sabe bem.
Não caminho para longe, venho para perto.
Vou leve, levo pouco – o suficiente – trago-me, indo de encontro.
Por baixo das ramblas, no bairro gótico, na música, por debaixo dela, dentro dela, nas ondas e na areia, em Sagres – naquele lugar, nas noites, durante o dia, no novo, no velho, na tenda e em casa, debaixo do sol e da lua, perto e longe do centro, no limite, com amigos, nas gargalhadas e nos abraços que trarão as lágrimas, aqui na península, no verão – vou, estou, vivendo por instantes, fora. Dentro!
I´ll be around. Never too far away.

Sunday, July 8, 2007

Musa - Férias - Reflexões

A importância do que importa é orgânica.
É engraçado perceber como se sente o que se sente nos momentos “da nossa vida”, nos concertos memoráveis, nas viagens e nos lugares que nos marcam para sempre, na música que nos leva longe, no teatro e cinema que nos renova as ideias, nos livros que nos acrescentam para toda a vida, nas manhãs, tardes e noites que nunca mais esquecemos, no que de inesquecível tem os pormenores que nos transformam.
Nesses instantes, verdadeiramente únicos e sempre memoráveis, sobre quem recai o olhar, em presença, ou o pensamento na distância? Sobre quem se inspira a vontade de os partilhar, de os tornar seus também, de os tornar maiores pela sua existência. Sobre quem incide a nostalgia dos momentos felizes?
Muitas vezes nos defrontamos com a necessidade de um lugar ou de uma pessoa, no quotidiano de todos os dias, na vivência dos lugares e dos pormenores diários. Nessas alturas, experienciamos a saudade e a vontade de uma determinada forma, agimos sobre ela de um determinado modo e, quase sempre, torna-se parte da rotina o confronto com o que dela fazemos, tarde ou cedo.
No entanto, é nos momentos únicos, aqueles que, como dizia, nos transformam, nos preenchem e nos marcam irreversivelmente, que conseguimos sentir a falta, não de todos os dias, mas de um instante maior que todos eles, e é num ápice de consciência que amamos mais que nunca [ou mais que nunca tomamos consciência desse amor], é nessas circunstâncias que nos aperta o peito e se apertam as mãos e os abraços com mais vontade, que se rasgam os sorrisos mais verdadeiros e se soltam as lágrimas mais sentidas e felizes. É nesses momentos também que se escrevem as cartas mais bonitas, se faz de poemas canções, se compõem partituras, se desenham obras de arte, e se trocam os olhares e silêncios mais profundos. É ai, nesses instantes, onde o tempo não tem espaço para além da eternidade que somos, que nos deparamos com quem mais peso tem, quem nos completa o suficiente para completar, também, o momento e aquela magia. É ai que sentimos e sabemos quem a sentiria com a mesma intensidade, quem a veria através de nós e nós a conseguiríamos ver através dela.
Os momentos únicos, e a vontade de os partilhar são, talvez então, aquilo que nos une. E é através da necessidade de os dividir, com essas pessoas, que o desejo de todos os dias se torna suficientemente grande para os actos de amor e afecto, que nos perspectiva a vida de uma outra forma e, sem dúvida, nos puxa os pés para a frente e nos faz mais felizes.
Este fim-de-semana, começaram as minhas ferias.
Este fim-de-semana, partilhei-o e foi bom ter essa perspectiva de mão dada no centro da música, no concerto de “Skaparapid”, ou num abraço apertado a quatro a seguir.
Foi bom sentir que, há pessoas que nos marcam, que nos fazem mais felizes.
Foi bom sentir isso convosco, foi bom sentir isso por vocês, foi bom saber que é verdade.
Foi bom saber que não é preciso mais do que o que se espreita pelo olhar, para saber que vai durar tudo o que puder durar, e enquanto existir, valerá sempre a pena.
A telepatia afectiva, no fim de contas, existe, e quem a sente, sabe disso.

A tendência ao sentimentalismo está forte, muito forte, portanto!

Friday, July 6, 2007

Pois! café

A música de fundo inunda a sala de uma tranquilidade abstracta e de um acolhimento introvertido, virado para dentro. Do fundo da cozinha, de onde vem o cheiro do lugar, até ao princípio da primeira mesa, [onde habita aquele livro que ficou por ler, agora amado pelos olhos de outro], os passos não se ouvem, nem se vêem, sentem-se, somente, no soalho que vibra por debaixo da arca, sobre a qual tenho os pés.
O silêncio solta-se nessas notas musicais, que vão ficando presas no magnete dos postais nos placares da parede. A sua aura eléctrica e química, pulsa nas ideias, aclara-as, domina-as, transforma-as e transporta-as para qualquer outro lugar, impreciso, dinâmico e cheio de ecos dos momentos que passam diante dos olhos, lenta e sofregamente, como se de uma hipnose se tratasse. Como se quase pudesse levitar do sofá para as ruas de Alfama, para as ruas do mundo, de outros reinos, de outros espaços, de outras memórias e de outros futuros. Como se ao conseguir fazê-lo, mesmo que só por uns instantes, inconstantes e no infinito espaço da imaginação, a sensação de leveza se instaurasse e o preconceito da mente se difundisse por entre os dedos.
Ali, aqui, agora, só o que se sente preenche, abala e remexe, nessa lufada de ar fresco que o vento transporta. A noção de tempo, esse, perde-se então nos encontros mnésicos e agradáveis que o “Pois!café” me oferece.
Gosto de me perder, por vezes.
Porque afinal, que importância tem o que não importa?


"Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não."
Sophia de Mello Breyner Andresen
(Só porque eu gosto)

Monday, July 2, 2007

O que é nos une?
O que é que nos liga em geral? Ou o que é que de geral nos une em particular? São os pormenores? É o todo?
Como é que as mesmas características que se amam, com a mesma intensidade, são alvo de odio por outro?
Quais são as particularidades que nos tornam inseparáveis ou destinados ao constante desencontro? O que é que faz dAquela pessoa, e não Aquela, a única para estar aqui ou ali, para fazer um piquenique, beber café, partilhar um livro, partilhar uma ideia, mostrar um momento, viver um momento, dormir ao lado, encostar o ombro, apertar a mão, beijar o rosto, beijar a boca, rir sem motivo, rir com motivo, chorar de alegria, chorar com tristeza, comer um gelado, beber um sumo ou entornar uma bebedeira, mergulhar na água, mergulhar na conversa, telefonar sem relógico, acordar sem ética, adormecer com ternura, tocar uma musica, trocar uma musica, escrever uma musica, viver um sonho, partilhar um objectivo, agarrar com força, largar com força, esquecer o ridiculo, provar da loucura, lembrar a razão, ser seguido por, ser seguidor de, viver e morrer. O quê? O que é que nos une e porque é que nos une? O que é que nos torna indispensáveis? O que é que nos torna únicos?
Ser simpático? Ser divertido? Ser bonito? Ter cultura? Ter estilo? Personalidade forte? Grande carácter? Ser diferente? Ser igual? Gostar de verde, amarelo ou vermelho? Ouvir The Gift, Pearl Jam ou Sérgio Godinho? Ler Saramago, Peixoto ou Fernando Pessoa? Viver desta ou daquela maneira? Ter ou não ter aquilo e aquilo?
O quê?
Será isso que nos torna únicos? Será por isso que nos uninos?
Não será certamente. Não será [apenas] isso que nos une.
O que é então?
O que é que nos aproxima? Do que é que sentimos falta? O que é que nos torna insubstituíveis?
O que é que nos une afinal?

Não sei bem o que me une às “minhas” pessoas “especiais”, as “minhas” pessoas únicas. Mas de qualquer modo, não queria deixar de dizer que…

adoro-te e à tua espontaneidade desleixada. Sempre vamos acampar para a Grécia?
a minha definição de família passa pelo que és para mim. É disfuncional, mas há muito amor! lol! Adoro-te!
és um pilar tão importante para mim, uma força que me dá tanta força, tenho saudades tuas, muitas!
gosto tanto de ti. Acrescentas-me todos os dias, mesmo que não saibas!
tem sido uma grande aprendizagem conhecer-te. Importaste-te de não te ir embora?
faz do tempo esse parapeito para o salto maior. Tens força e talento para isso. E tens-me a mim, mesmo que nunca tenhas acreditado nisso.
... Adoro-te, sem fita métrica.
.

A todos os "outros"...o facto de o serem, já são muito!